Especialistas alertam para riscos do calor extremo, que vão de quedas de pressão à falência térmica, especialmente entre grupos vulneráveis.
Campinas viveu, no Natal, o dia mais quente de 2025 e acendeu um alerta médico que vai além do desconforto térmico. Na quinta-feira (25), os termômetros chegaram a 37,2°C, a maior temperatura do ano, superando o recorde anterior de fevereiro, segundo o Ciiagro. O Estado de São Paulo vive uma onda de calor classificada como de grande perigo pelo Inmet (Instituto Nacional de Meteorologia).
De acordo com o clínico geral e coordenador do Pronto Atendimento do Hospital Sírio-Libanês, Luiz Fernando Penna, o risco do calor intenso ainda é subestimado pela população. “Muitas pessoas acreditam que o calor causa apenas mal-estar, mas estamos falando de riscos reais, que incluem desde quedas de pressão até a falência térmica do corpo”, alerta.
Em situações de calor extremo, o organismo entra em estado de esforço máximo:
“Esses mecanismos têm limite. Quando falham, instala-se a falência térmica, que pode levar ao colapso do organismo”
explica o médico.
A falência térmica é considerada uma emergência médica e ocorre quando os mecanismos naturais de regulação da temperatura deixam de funcionar. Os principais sinais são confusão mental, pele quente e seca e temperatura corporal acima de 40°C. “Diante desses sintomas, é fundamental buscar atendimento médico imediato”, reforça Penna.
“Não existe adaptação completa para ondas de calor extremas e repetidas”, afirma Penna. “Acima de 35°C, especialmente com alta umidade, o corpo humano simplesmente não consegue funcionar como deveria.”
O recorde de temperatura registrado em Campinas no Natal, portanto, não é apenas um dado meteorológico. Ele funciona como um alerta médico e social sobre os limites do corpo humano diante de um cenário cada vez mais frequente de calor extremo, associado às mudanças climáticas induzidas pela ação humana. Reconhecer sinais precoces e adotar medidas de proteção pode ser decisivo para evitar consequências graves e até fatais.
O cenário é ainda mais preocupante para pessoas com doenças crônicas, como hipertensão, insuficiência cardíaca, diabetes, doença pulmonar obstrutiva crônica (Dpoc) e doença renal. O uso de medicamentos como diuréticos, anti-hipertensivos, antidepressivos, anticolinérgicos e antipsicóticos também aumenta a vulnerabilidade, pois pode interferir na regulação térmica ou intensificar a desidratação.
Para quem já tem uma condição de base, o calor impõe uma sobrecarga perigosa
destaca o médico
As altas temperaturas afetam o sono, comprometem o humor, aumentam a irritabilidade e reduzem a capacidade de concentração e tomada de decisões. Esses efeitos impactam diretamente a produtividade e elevam o risco de acidentes, especialmente em atividades que exigem atenção constante.
Os efeitos do calor extremo sobre a mortalidade já foram comprovados por estudos científicos. Pesquisa da Fiocruz (Fundação Oswaldo Cruz), divulgada em fevereiro de 2025, associou o aumento das temperaturas ao crescimento do número de mortes no Rio de Janeiro, sobretudo entre idosos e pessoas com doenças como diabetes, hipertensão, Alzheimer, insuficiência renal e infecções urinárias. O estudo analisou mais de 800 mil óbitos entre 2012 e 2024.
Diante desse contexto, especialistas reforçam que hidratar-se, embora essencial, não é suficiente. A orientação é:
Trabalhadores que não podem evitar a exposição, como os da construção civil, coleta de lixo e entregas, devem fazer pausas frequentes nas horas mais quentes do dia.
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