Você acertaria? Participante perde R$ 300 mil ao errar pergunta no Domingão

O engenheiro Luiz Cordovil, do município de Tefé (AM), saiu do quadro "Quem Quer Ser Um Milionário", do Domingão com Huck, com R$ 150 mil no bolso, deixando para trás uma pergunta que valia R$ 300 mil e tratava de livros proibidos durante a ditadura argentina.

No palco, a questão parecia apenas mais um desafio de múltipla escolha: “Qual destes clássicos da literatura mundial a ditadura militar argentina proibiu?”. As alternativas eram: a) “Dom Quixote”; b) “A Montanha Mágica”; c) “Guerra e Paz” e d) “O Pequeno Príncipe”.

A resposta correta só foi revelada depois, para o público: letra d) “O Pequeno Príncipe”. A escolha surpreende quem associa a obra de Antoine de Saint-Exupéry a uma leitura suave sobre amizade, infância e afeto, muito presente em escolas e listas de leitura obrigatória.

Publicado em 1943, em plena Segunda Guerra Mundial, o livro se tornaria um dos mais traduzidos do mundo.

Como lembra o canal de Youtube Clube de Literatura Clássica, “O Pequeno Príncipe” é considerado clássico por condensar, em linguagem simples, temas como “o valor das amizades, o poder dos laços humanos e a importância de olhar para o que tem dentro da gente”.

No enredo, um aviador cai no deserto e encontra um menino que narra suas viagens por planetas onde vivem personagens como o rei, o vaidoso e o homem de negócios, figuras simbólicas que expõem a obsessão adulta por poder, status e números.

Na Argentina, porém, essa narrativa foi vista de outra forma durante a ditadura militar instalada em 1976.

Reportagem do jornal Clarín, publicada em 5 de março, ao lembrar os 50 anos do golpe de 1976, cita “O Pequeno Príncipe” entre os livros e autores que foram alvo de censura naquele período (1976-1983).

A obra aparece ao lado de títulos políticos e também de literatura voltada ao público jovem, numa lista que ajuda a dimensionar o alcance da repressão cultural.

Entre 1976 e o fim do regime, a intervenção do Estado no que se lia não se limitou a panfletos e manifestos. Houve retirada de livros de bibliotecas, vetos a títulos em escolas e orientações para “evitar” determinadas obras em ambientes educativos.

“O Pequeno Príncipe”, com seu convite à imaginação, ao questionamento e à empatia, passou a integrar esse conjunto de livros considerados inconvenientes e até "subversivos" para crianças e adolescentes.

O contraste entre a imagem de livro “inocente” e sua presença em listas de censura ajuda a entender como a literatura infantil também é alvo de regimes autoritários.

Do que se trata o livro?

Na trama, o menino que deixa seu pequeno planeta, cuida de uma rosa e aprende com a raposa que “tu te tornas eternamente responsável por aquilo que cativas” é, ao mesmo tempo, um personagem doce e um vetor de reflexão sobre laços, responsabilidade e sentido da vida.

A biografia de Saint-Exupéry também ilumina essa leitura. Aviador e escritor francês, ele escreveu “O Pequeno Príncipe” no exílio, nos Estados Unidos, enquanto a França estava ocupada pelos nazistas.

Segundo o Clube de Literatura Clássica, o livro funciona como um “grito de esperança” em meio à devastação da guerra, ao recolocar no centro valores como solidariedade, amizade e amor.